As sagradas Águas de Òsàlà

"(...) Òsàlà então, após ter passado sete anos na prisão, é finalmente encontrado por Sàngó, que fica completamente estarrecido com a cena: o velho pai jogado, sem poder andar. O pai dos Òrìsà então diz: - não posso andar, me carregue nas costas. Então Sàngò determinou que na madrugada do dia seguinte todos os habitantes daquela cidade deveriam acordar de madrugada e, silenciosamente, cobertos de branco como aprazia a Òsàlà, se dirigissem a uma fonte nos arredores, portando vasilhas para recolher água límpida; de volta da fonte, um após outro deveriam honrar Òsàlà lavando-lhe os pés, em sinal de respeito, como ritual de purificação e expiação pela ofensa cometida."
Essa é a parte final do mito, bastante conhecido, que retrata o nascimento das Águas de Òsàlà, verdadeiro ritual de purificação, de harmonização interior e de integração com as forças da natureza, representadas simbolicamente pelo maior de todos òrìsà: Òsàlà.
Considerado pai da Criação, outro mito narra como recebeu a incumbência do próprio Olodumarè (Deus em sua manifestação suprema) de criar a Terra e tudo o que nela existe, inclusive os seres humanos; de como humildemente consultou Ifá e ofereceu ebó composto de uma corrente, um caracol, uma galinha de cinco dedos, uma porção de terra do Orun ancestral, uma semente da palmeira de Ifá (òpefá eni) e um pombo todo branco, e como Olodumarè devolveu tais materiais para Òsàlà, acrescentando uma bolsa para contê-los (àpò-dídá), o poder da vontade (àbá) e o poder de realização (àsé); de como desceu através da corrente, derrubou sobre as águas a terra guardada na concha do caracol, soltou a galinha que espalhou a terra sobre as águas, e como finalmente o pombo levou de volta a notícia de que a terra estava firme e que a semente da palmeira havia brotado; e como após retornar para perto de Olodumarè, recebeu deste sementes de todas as árvores, a obrigação de criar os seres humanos, e o òpásóró, cajado que representa autoridade e o poder de Òsàlà.
Outra história contada (provavelmente não tão antiga quanto as primeiras), narra como Òsàlà, tendo chegado primeiro (e sozinho) no mundo, precisou trabalhar duramente para colocar tudo em ordem antes da chegada das outras divindades; por conta disso sofreu uma queda, deslocou o ombro e passou a andar encurvado, apoiado em seu cajado.
Tais mitos e lendas passados de geração a geração deixam claro a antiguidade e a senioridade de Òsàlà em relação ao mundo e tudo que existe e em comparação com outras divindades. Òsàlà é mais antigo, mais sábio, mais poderoso. Antigo, porque remonta ao tempo da Criação; mais sábio, porque velho, antigo, e antiguidade é posto; mais poderoso, porque recebeu do próprio Òlodumarè o poder de Realização através da Vontade.
Por tanto, você, omo-òrìsà, ao carregar sua quartinha com água, por três vezes, e levá-la para Òsàlà, lembre-se destas e de outras histórias sagradas que espelham o poder e a natureza desta divindade, pai de todos, por excelência. Lembre-se disso quando a água estiver sendo vertida em honra a Òsàlà; lembre-se disso quando sua cabeça estiver sendo lavada, purificada por essa mesma água; lembre-se disso quando finalmente depositar sua quartinha aos pés de Òsàlà, como oferenda, significando a própria condição de filho, simbolizando a esperança de que o Pai da Criação abençoe e guarde - não apenas a sua - mas sim a vida de cada ser humano sobre a face da Terra.
lembre-se disso. Boa obrigação.
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